Primario


Encontro-te deitado inerte,
Não fazes nada de bem que diga,
Não dizes nada, que me alegre,
Não mexas as patas, nem para te coçar
A preguiça é pecado capital

Já ouve alguém que te tivera dito?
És uma besta-quadrada
Estúpido de mais para ser ofendido
Mas tu nem ripostaste, de certo não percebeste
Nem sequer levaste a mal

Não ouves o que te dizem
Mas que estranha apatia, que focas o olhar nessa janela
Só engordas e não produzes
Vives na ilusão de que algo mais há-de vir
És odiundo, um símio Neandertal
Contradizes toda uma evolução milenar

O prazer de que se tem ao falar
Tu deitas por terra ao som do grunhido
Que te salta desse orifício bocal
Não mexas essas patas
Porque mãos têm os bodes
Que também falam a sua própria língua
Quando querem comunicar

E no que tocas, logo, logo, vira esterco
Que nem dá para fertilizar
Não levantes uma palha e não pares de ruminar
Porque o teu fim já todos sabem
Como qualquer outro dia que passas
Será de pernas para o ar

És ridículo, e fazes-me rir
E eu só te vejo a engordar
Por mais que te gabes do que não és
Eu só te ouso a relinchar
És o primata dos mais primários
E só mesmo um gorila para te ensinar
Que na vida o sol é de todos
E tu só nasceste para atrapalhar

Coisas


Há coisas e coisas
Há coisas que não se explicam
Há coisas que não se dizem
Há coisas que não se falam
Há coisas que não se vêem
Há coisas e coisas

Entre o céu e a terra, entre a espuma do mar
Entre o amar e calar, entre a bela e a fera
Entre a vida e os dias
Dias cheios de luz onde te cega o olhar
Onde a vida termina, onde o pecado era a cruz
É o inicio de uma nova era
Explicar para quê, dizer então
Não se fala nem ouve
A dor no coração, a dor no coração

Raras são as coisas que nos dão razão
Que nos pegam e confortam
Que nos dão a mão
Há coisas e coisas
Que não se explicam nem dizem
Que não falam nem se vêem
Estão connosco essas coisas
Dar-nos-ão vida ou sofrer
Mas não passam de coisas
Que iram sempre aparecer