Primario


Encontro-te deitado inerte,
Não fazes nada de bem que diga,
Não dizes nada, que me alegre,
Não mexas as patas, nem para te coçar
A preguiça é pecado capital

Já ouve alguém que te tivera dito?
És uma besta-quadrada
Estúpido de mais para ser ofendido
Mas tu nem ripostaste, de certo não percebeste
Nem sequer levaste a mal

Não ouves o que te dizem
Mas que estranha apatia, que focas o olhar nessa janela
Só engordas e não produzes
Vives na ilusão de que algo mais há-de vir
És odiundo, um símio Neandertal
Contradizes toda uma evolução milenar

O prazer de que se tem ao falar
Tu deitas por terra ao som do grunhido
Que te salta desse orifício bocal
Não mexas essas patas
Porque mãos têm os bodes
Que também falam a sua própria língua
Quando querem comunicar

E no que tocas, logo, logo, vira esterco
Que nem dá para fertilizar
Não levantes uma palha e não pares de ruminar
Porque o teu fim já todos sabem
Como qualquer outro dia que passas
Será de pernas para o ar

És ridículo, e fazes-me rir
E eu só te vejo a engordar
Por mais que te gabes do que não és
Eu só te ouso a relinchar
És o primata dos mais primários
E só mesmo um gorila para te ensinar
Que na vida o sol é de todos
E tu só nasceste para atrapalhar

2 comentários:

  1. Negra a noite
    de luto sufocada
    incrédula
    a lua foi negada
    deixando apenas raiva
    na emoção que esvazia
    Aceita
    há almas feridas
    que não desejam cura
    E a culpa
    não é do teu amor
    que é panaceia
    mas do seu
    um poço que nunca cheia
    Aceita
    aceita e espera
    quando a negrura passe
    o rei que cumprimenta
    fará bela à besta
    embora rastejante
    *

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  2. muito bom "errante", gostei bastante...

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